O FUTURO DA ENERGIA JÁ COMEÇOU: COMO A GD E AS BATERIAS VÃO REDESENHAR O SETOR ELÉTRICO ATÉ 2035
O FUTURO DA ENERGIA JÁ COMEÇOU: COMO A GD E AS BATERIAS VÃO REDESENHAR O SETOR ELÉTRICO ATÉ 2035
A transição energética brasileira entrou em um capítulo decisivo.
O novo caderno da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) revela como a micro e minigeração distribuída (MMGD) e o armazenamento por baterias devem moldar todo o setor elétrico até 2035. O documento é praticamente um mapa do futuro do setor — com projeções, incertezas regulatórias e sinais claros para investidores, distribuidoras, geradores e consumidores.
1. A FORÇA DA GERAÇÃO DISTRIBUÍDA NO BRASIL
A MMGD já é protagonista:
* Em 2024, a solar distribuída cresceu mais do que qualquer outra fonte no país.
* Já representa 5,6% da geração nacional e cerca de 13% do consumo cativo.
O PDE projeta que, até 2035, o país pode chegar a 78,1 GW de MMGD no cenário de referência — podendo chegar a 97,8 GW no cenário otimista.
O crescimento é puxado principalmente pelos segmentos residencial e comercial, com o Sudeste liderando a expansão — especialmente São Paulo, Minas e Rio de Janeiro.
2. A LEI 14.300/2022 E O GRANDE DIVISOR DE ÁGUAS DE 2029
O marco legal trouxe previsibilidade até 2028, mas o grande "X" do setor está em 2029.
A partir daí:
* A energia injetada na rede não será mais compensada integralmente;
* A remuneração dependerá de uma metodologia de valoração de custos e benefícios da MMGD, que a ANEEL ainda vai definir;
* A consulta pública e os estudos só começam no 2º semestre de 2025.
O resultado?
Investidores já ponderam o risco regulatório nos projetos atuais — e a decisão da ANEEL pode redefinir o apetite por novas usinas de GD.
3. A HORA DAS BATERIAS: POR QUE A EPE COLOCA O ARMAZENAMENTO NO CENTRO DO PLANO
Nunca se falou tanto em baterias no Brasil — e pela primeira vez elas entram com força no planejamento decenal.
O documento mostra que baterias atrás do medidor (ADM):
* evitam inversão de fluxo nas redes (problema crescente na MMGD);
* agregam flexibilidade, reduzem curtailment e otimizam a curva de carga;
* funcionam como alternativa a reforços de rede;
* servem para peak shaving, backup e aumento do autoconsumo.
É um leque impressionante de aplicações.
No mundo, o salto foi gigantesco:
* 1 GW (2013) → 85 GW (2023) instalados;
* o mercado estacionário dobrou só em 2023;
* estima-se queda de 45% a 57% no preço das baterias até 2035.
No Brasil, o custo ainda é o obstáculo:
* Residencial: ~R$ 3.500/kWh;
* Comercial/industrial: ~R$ 2.000/kWh (segundo ABSAE).
Mesmo assim, o PDE mostra que o avanço regulatório e a queda de preços podem destravar um mercado potencial de até R$ 200 bilhões até 2035 — se todos os usuários de GD investissem em armazenamento.
4. Quando as baterias já fazem sentido: os dois casos analisados pela EPE
A EPE estudou duas aplicações principais:
I. Substituição de geradores a diesel no horário de ponta (tarifa A4 Verde)
Onde há grande diferença entre ponta e fora ponta (BA, PA, SE), baterias já podem ser competitivas para consumidores com alto fator de carga na ponta.
* A partir de R$ 2.000/kWh, baterias começam a ganhar da geração diesel.
* Além do custo: menos ruído, menos logística, mais confiabilidade.
II. Aumentar o autoconsumo da geração solar residencial
Apesar da Lei 14.300 ainda remunerar relativamente bem o crédito até 2028, as baterias:
* reduzem dependência do SCEE;
* evitam injeção na rede;
* elevam o consumo local;
* preparam o consumidor para 2029.
Hoje, não fecham a conta para o grande público — mas já atraem nichos com foco em resiliência e autonomia.
5. O futuro regulatório que vai decidir tudo
O caderno deixa claro: três fatores vão definir o ritmo dessa revolução energética:
A. Abertura total do Mercado Livre (a partir de 2027)
Consumidores poderão escolher fornecedores.
A GD perde parte do apelo de economia, mas ganha espaço em modelos híbridos e em serviços de flexibilidade.
B. Novas modalidades tarifárias
A MP 1.300/2025 abre portas para:
* tarifas locacionais;
* tarifas por capacidade;
* tarifas dinâmicas por horário.
Esse pacote pode tornar baterias muito mais atrativas.
C. Valoração da MMGD em 2029
Esse é o coração do debate — e o maior risco regulatório da década.
6. O Brasil no radar global do armazenamento
O caderno mostra como a política industrial brasileira começa a se mover:
* FINAME financia baterias estacionárias;
* MDIC reduz imposto de importação para itens sem similar;
* Portaria INMETRO 140/2022 dá mais segurança ao mercado;
* O programa “Nova Indústria Brasil” prevê nacionalização de baterias.
Ainda estamos atrás de EUA, Alemanha e Austrália, mas o arcabouço está nascendo.
Conclusão
O PDE 2035 revela uma verdade simples e poderosa:
A ENERGIA DISTRIBUÍDA E O ARMAZENAMENTO SERÃO OS PILARES DA MODERNIZAÇÃO DO SETOR ELÉTRICO BRASILEIRO.
A GD cresce de forma avassaladora, mas enfrenta incertezas regulatórias importantes. As baterias, por outro lado, ainda não fecharam a conta para todos — mas estão a um gatilho regulatório (e alguns anos de queda de preço) de se tornarem mainstream.
A convergência de três forças — tecnologia, política industrial e nova regulação — deve redesenhar completamente o papel do consumidor, que deixa de ser passivo para se tornar um agente ativo, com autonomia, flexibilidade e novas formas de interação com a rede.
O Brasil está às portas de uma das maiores transformações energéticas da sua história.
Por: Juliana de Oliveira - Advogada no Setor Elétrico